quinta-feira, 14 de junho de 2018

Como eu participei, como soldado, do plano delirante de invasão do Uruguai pela ditadura brasileira.



Por Carlos Fernando Piske



Janeiro de 1971. Como todos os jovens, aos 18 anos ingressei no Exército para cumprir o serviço militar obrigatório. Mesmo que o Exército me dispensasse, meu pai daria um jeito para que eu servisse.

Militar de carreira, expedicionário da FEB e veterano da Segunda Grande Guerra no teatro de operações da Itália, entrou para a reserva após ter atingido o posto de major e sonhava que seus três filhos homens seguissem a mesma carreira.

Mas esse sonho foi por terra juntamente com meus cabelos longos de jovem idealista e já com um anarquismo mal disfarçado nas atitudes. Nessa hora ficou claro para mim que minha trajetória, ali, seria conturbada.

Com o passar do tempo, comecei a perceber a inutilidade, falta de eficiência, de objetividade de nossos treinamentos e pouquíssima coisa que serviria para sobreviver em combate.

Nada de técnicas de combate e estratégias. Parece que tudo se resumia em levar o soldado aos limites de sua força física, como se estivessem nos preparando para uma competição. Tiros reais foram poucos pela escassez de munição devido ao orçamento parco.

Talvez isso explique o rendimento das tropas no combate à guerrilha do Araguaia, em que foram usados milhares de soldados durante quase cinco anos para destruir um foco de uma centena de guerrilheiros mal armados.

Manobras de guerra não estavam previstas naquele ano. Era uma grande operação que envolvia até 5 mil homens, centenas de viaturas, tanques, helicópteros, aviões, muita munição e centenas de milhares de litros de combustível. Essa é a razão pela qual só são realizadas de quatro em quatro anos.

Entretanto, no início de novembro, ouvi que um grupamento de nosso quartel iria se juntar com tropas do Sul para uma grande manobra de guerra.

Procurei então o tenente comandante da companhia e me apresentei como voluntário, já de olho na possibilidade de sair na segunda baixa no final de ano. Mas os convocados eram somente do grupo de enfermagem.

Explico. Quem participa de manobra de guerra, sai no máximo na segunda baixa. Eu certamente estaria na última em fevereiro por questões disciplinares. Não fui um bom exemplo de soldado e dei tanto incômodo que meu pai abandonou a ideia de ter os filhos seguindo sua carreira.

Mas, no dia de embarcarem, um dos soldados não se apresentou. Imediatamente fui chamado e recebi ordens para preparar meu material de campanha, pois iria junto com eles.

Fomos de Joinville para Curitiba e paramos algumas horas no REC MEC, Regimento de Cavalaria Mecanizada. Confusão, desencontros. Dali nos dirigimos para um quartel no centro de que não recordo o nome.

A cada parada, engrossava o comboio. Partimos em direção a Guarapuava (PR) onde jantamos e pernoitamos na Companhia de Cavalaria, que faria o papel de inimigo no treinamento.

De manhã cedo, saímos ao destino final, Campo Erê, uma cidadezinha que tinha na época cerca de 3 mil habitantes, situada no oeste de Santa Catarina.

Acabei assumindo a função de operador de central telefônica, aquela cheia de plaquinhas, furos e plugs que funcionava com uma manivela para produzir eletricidade.

Mais tarde fui saber que aquelas eram as famosas “macaquinhas” utilizadas largamente na tortura de presos políticos.


O cônsul brasileiro Aloysio Dias Gomide, sequestrado pelos tupamaros
Terminado o exercício militar de dez dias, retornamos para Joinville. Após uma noite de sono, dormindo de novo numa cama, de manhã cedo recebemos ordens de voltar a Curitiba com todo nosso material de guerra. Assim, sem explicações, sem ter tido contato com a família.

Lá ficamos aquartelados no Núcleo Preparador de Oficiais da Reserva. No pátio, caminhões e outras viaturas, carregadas de armamento, munições e material de campanha. A ordem era não sair do quartel. Mal permitiam atravessar a rua para comprar cigarros.

Sabíamos que algo de grave estava acontecendo. Estava no ar. O comandante de nosso grupo nos segredou que ouvira falar de eleições no Uruguai e que os tupamaros, grupo guerrilheiro, iriam participar das eleições junto com a Frente Ampla.

Caso perdessem, iriam fugir para o Brasil e nós iríamos dar apoio à 15ª Divisão de Infantaria, que já se encontrava na fronteira com o Uruguai, para expulsá-los. Era o que nos foi passado.

Depois de cerca de um mês e meio de prontidão, retornamos finalmente para Joinville. 

Saímos todos em baixa especial dia 31 de dezembro de 1971, ao meio dia.

Muitos anos depois, lendo o Livro “Aventura, Corrupção e Terrorismo” do Coronel Dickson M. Grael, é que fui saber da verdade.

Já havia um resfriamento nas relações Brasil e Uruguai por causa do fracasso nas negociações pela libertação do cônsul brasileiro Aloysio Gomide, sequestrado pelos tupamaros em 1970.

O diplomata só seria libertado após sete meses de cativeiro, mediante pagamento de resgate pela família. Também havia o fato de João Goulart e Brizola estarem exilados no país vizinho. O plano de invasão receberia o nome de “Plano Trinta Horas”, o tempo que o Brasil teria para invadir o Uruguai, depor o presidente eleito, colocar outro em seu lugar juntamente com um grupo de militares golpistas e sair fora antes que governos e organizações internacionais se dessem conta.

Duas semanas antes dos preparativos para a invasão, houve um encontro entre Médici e Nixon que reforça a informação da ingerência também dos EUA. Recentemente mais de quinhentos documentos de Estado Americano, CIA e governo brasileiro, foram desclassificados por Obama após encontro com Dilma.

Eles tratam exaustivamente da participação do Brasil na fraude que pôs no governo Juan Bordaberry, que vence por pouco mais de 12.000 votos.

Assume em 1972 e dá um golpe em 1973. Perdeu a Frente Ampla que abrigava os tupamaros, Partido Comunista Uruguaio, Partido Socialista, militares de esquerda. Seu candidato foi Liber Seregni.

Vale salientar que a esquerda estava fortemente armada para rechaçar os invasores. Particularmente, conforme já falei, não creio que nossas forças armadas conseguiriam cumprir o objetivo em “trinta horas”.

É claro que temos combatentes de elite, como é o caso do Batalhão de Selva, um dos mais bem treinados e letais do planeta. Mas não é regra, é exceção. Vale aquela máxima que diz que nosso Exército é pequeno demais para a guerra e grande demais para a paz.

Mas, felizmente para todos, esse delírio de interferir na soberania e autodeterminação do Uruguai, ficou restrito à nossa cooperação na fraude eleitoral.

E foi assim que eu quase fui pra guerra.



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